THE LUXURY TEA← Início

Negócios & Pessoas · Especial

Loro Piana abre em Ghemme seu maior investimento industrial — e põe o savoir-faire no centro do crescimento

A nova fábrica de malharia da Loro Piana em Ghemme reúne produção, formação artesanal e integração vertical — e mostra por que o savoir-faire voltou ao centro da estratégia do luxo.

A Loro Piana inaugurou em Ghemme, no Piemonte, uma fábrica de 8 mil metros quadrados dedicada à malharia. O projeto, desenvolvido ao longo de três anos, representa o maior investimento da história da maison e deve reunir cerca de 300 profissionais nos próximos três anos.

O dado mais importante não está apenas no tamanho da unidade. A Accademia dei Mestieri, centro de formação criado pela marca em 2015, foi transferida para um edifício próprio dentro do complexo. Produção e transmissão de conhecimento passam, assim, a ocupar o mesmo endereço.

Uma fábrica para proteger competências raras

Segundo Frédéric Arnault, CEO da Loro Piana, a prioridade estratégica é ampliar o controle sobre o know-how, o desenvolvimento industrial e a integração vertical. A maison quer internalizar capacidades consideradas escassas, entre elas técnicas ligadas ao double cashmere.

Essa escolha ajuda a explicar por que o crescimento no topo do mercado não depende somente de abrir lojas. Quando a matéria-prima é limitada e a execução exige treinamento prolongado, a capacidade industrial torna-se parte da própria proposta de valor.

O novo centro também traduz essa ambição em arquitetura. A página do grupo LVMH dedicada ao local descreve pátios com espécies nativas, grandes fachadas envidraçadas e entrada abundante de luz natural, conectando o edifício à paisagem do Piemonte — região histórica da indústria têxtil italiana.

Integração vertical também é governança

A inauguração acontece num momento em que a cadeia produtiva do luxo italiano está sob maior escrutínio. A Loro Piana afirmou ter realizado 2.400 auditorias desde 2024 e reforçado processos de seleção e monitoramento de fornecedores. A medida de administração judicial aplicada à empresa por um caso envolvendo um subcontratado foi encerrada antecipadamente, em abril de 2026.

Trazer etapas estratégicas para dentro de casa não elimina o dever de controlar toda a rede externa, mas aumenta a visibilidade sobre capacidade, qualidade e condições de produção. Para uma marca cuja reputação depende de fibras raras e acabamento difícil de escalar, a governança da cadeia deixa de ser bastidor e passa a integrar o produto.

Crescer com limites deliberados

A Loro Piana avança em ritmo forte dentro da LVMH, mas procura administrar a escassez. A marca vem reduzindo o número líquido de pontos de venda, ao mesmo tempo que concentra presença em endereços mais relevantes; uma nova flagship em Omotesandō, Tóquio, está prevista para outubro.

Há expansão em outras categorias. A maison adquiriu uma fábrica de artigos de couro na Toscana, com inauguração prevista para o verão europeu de 2027. O movimento sugere que o próximo ciclo será construído menos pela multiplicação indiscriminada de distribuição e mais pelo domínio de competências produtivas.

O sinal para o mercado de luxo

Ghemme resume uma mudança importante: manufatura, formação e rastreabilidade voltam a ocupar o centro da narrativa de luxo. Em vez de tratar o savoir-faire como abstração publicitária, a Loro Piana o transforma em infraestrutura — com pessoas, espaço e investimento mensuráveis.

Para marcas e grupos brasileiros, o aprendizado é direto. Desejo pode ser construído por imagem, mas longevidade exige capacidade produtiva, formação contínua e controle de qualidade. No luxo contemporâneo, a fábrica bem concebida não é o avesso da marca; é uma de suas expressões mais decisivas.

CompartilharWhatsAppLinkedIn

Continue lendo